sábado, 23 de janeiro de 2010

O tradutor de Acompanhamento- Parte I




Nos últimos meses, além de traduções, venho realizando muitos trabalhos de interpretação e há tempos gostaria de fazer algumas considerações sobre o assunto. Até porque pouco se fala da interpretação em que estou me especializando, a escort translation, ou tradução de acompanhamento. Neste trabalho, o intérprete acompanha o cliente durante algumas horas e/ou dias facilitando sua comunicação. Este acompanhamento pode ser a uma consulta médica, a uma reunião de negócios, na visita a uma ONG em uma cidade do Interior, um almoço com sócios, enfim, imaginem qualquer situação entre duas pessoas que falam idiomas diferentes e lá cabe o intérprete de acompanhamento. É um trabalho que exige muito do intérprete, pois o nome acompanhamento carrega consigo um peso maior do que o imaginado. O intérprete torna-se um facilitador do cliente. É ele quem fala com o taxista, que explica os pratos para o cliente estrangeiro, que fornece os dados culturais inevitavelmente perguntados pelo cliente. É como se fosse uma sombra ativa; deve ser invisível, mas é sempre antes notado, sempre cumprimentado primeiro; é geralmente o nome e a face do tradutor que ficará gravado na memória dos participantes da tradução. É um trabalho para, como falamos aqui no Ceará, gente desenrolada. Já lidei com as mais variadas situações na tradução de acompanhamento, desde ter que correr de salto nas areias do Cumbuco para acompanhar um estrangeiro soldado do exército que cuidava da segurança de participantes de um reality show, ser esmagada em um assento de ônibus por 7 horas em razão de o cliente ser bem acima do peso e ocupar não somente seu assento, mas também o meu, até passar o dia inteiro na traseira de uma pampa com um sol de fritar ovo na testa conhecendo fábricas rústicas no interior do Estado.

É um trabalho para poucos, não só pelos desafios lingüísticos, mas pela dinâmica da situação ser completamente imprevisível. Eu diria que ela é a talvez a tradução mais complexa de ser realizada, uma vez que a tradução de conferência, conhecida por sua complexidade e necessidade de raciocínio rápido, possui pelo menos uma certeza: o tradutor estará em sua cabine (ou local afastado adaptado para tanto) e o palestrante tem grandes chances de sequer sair do local onde está sentado. Ele não vai querer conhecer as abelhas brasileiras indo mato à dentro quando o plano inicial era conhecer a fábrica de castanhas.

O intérprete de acompanhamento é pau para toda obra, e precisa ser alguém que aprende com os erros passados como carregar uma barrinha de cereal se o estrangeiro resolver não parar para almoçar, carregar sua própria garrafinha d’água quando visita interiores de água de filtro, portar umcbloco de notas e caneta, manter um celular ativo para eventuais emergências.

É um trabalho fantástico e extremamente desafiador que permite ao intérprete vivenciar situações, visitar lugares e experimentar realidades às quais dificilmente teria acesso em outras circunstâncias. É como estar constantemente de férias e ainda ganhando por isso, e quando volto para casa, tenho as mais incríveis e surpreendentes histórias para contar.

Jamie Barteldes

2 comentários:

  1. Por isso que eu vivo te dizendo que não dou pra interpretação. Como você mesma disse, é pra pessoas desenroladas, e eu definitivamente não me encaixo no tipo de viver no limite :p

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  2. Eu dei boas risadas lendo o seu artigo!! Isso é verdade! Já passei por cada uma também...

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