Acerca dos semi-falantes na tradução consecutiva
Às vezes eu gostaria muito de ser tradutora de uma língua bastante incomum, um dialeto da África (como na intérprete vivida por Nicole Kidman em A intérprete) ou um javanês. Uma língua pouco conhecida, misteriosa. Uma língua respeitada como língua, idioma, instrumento de comunicação de uma dada cultura. Mas sou tradutora de Inglês e embora isto me traga mais oportunidades de trabalho do que as demais línguas, às vezes passo por situações no mínimo chatas.
Falo dos semi-falantes. Falo das pessoas que estudaram um pouco de Inglês, conseguem compreender o idioma e precariamente se comunicar. Falo das pessoas que com um nível básico de conhecimento de uma língua se acham capazes de julgar uma tradução. O mais interessante é que somente pessoas com um nível lingüístico baixo possuem esta visão preto no branco. Que aprenderam que book é livro e quase morrem se você se traduzir como publicação gráfica, que quando vêem a mesma palavra transformada em verbo já solicitam uma ambulância, o enfarto inevitável . Quem de fato conhece um idioma entende que tradução é um jogo de escolhas e que existem muitas possibilidades. E mais importante, cabe ao intérprete, aquele que está recebendo pelo serviço prestado, tomar estas decisões. Entristeço ao ouvir uma “correção” tola vinda de uma platéia. Entristeço pois quem nada entende do que está sendo dito acaba ficando confuso, quem realmente precisa da tradução, fica sem saber em quem acreditar.
Que fique claro que com isso não quero dizer que o intérprete é infalível e que não deve ser corrigido caso esqueça-se de um termo ou acabe passando por cima de uma informação importante. O que quero dizer é que é necessário tomar muito cuidado com o que achamos que sabemos e o mais importante – com o que dizemos e em que situação. Um comentário sobre um ponto da tradução pode ser feito no intervalo do evento com o próprio intérprete. Controlemos o próprio ego e percebamos que não é gritando o termo que você acredita ser a melhor escolha que você justificará o dinheiro investido nos seus três semestres de IBEU. Eu costumo dizer que essas pessoas não arranham no Inglês e sim arranham o próprio Inglês. No rigor absurdo de querer se justificar com o que sabem e mostrar que sabem mais que qualquer outro no evento, acabam perdendo o conteúdo em si. Pois uma coisa é certa, eu cobro para revisar traduções, mas as pessoas em eventos internacionais que teimam em constantemente revisar o intérprete na verdade estão pagando para trabalhar.
Jamie Barteldes
Ouvindo: Cry baby da Janis Joplin
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ResponderExcluirOs falantes preto-no-branco não se gabam em corrigir um tradutor, somente. Eles são os mesmos que encontramos nas salas de aula, perguntando os porquês mais improváveis, dignos de uma resposta como "você poderia passar seus próximos anos estudando linguística, porque aí, quem sabe, você irá entender o quão "tolos" são os seus questionamentos. Não se pergunta a um médico porque depois de ouvir suas queixas ele passa um remédio... por que, nesta altura do campeonato, as pessoas ainda querem questionar a ação dos profissionais em língua estrangeira? Será que o fato de passarmos anos na universidade não prova nada? Será que teremos que provar a que viemos todas as vezes que trabalhamos na nossa própria área? Isso tudo para mim é uma questão cultural, social e de educação. Num país onde não se respeita a educação formal, os educadores são meros prestadores de serviços. E no caso dos tradutores, é ainda mais difícil, porque o verniz cultural da "fina classe média" brasileira é duro e de má qualidade. Se é para mostrar verniz, que seja pelo menos de forma inteligente.
ResponderExcluir(Apaguei para corrigir e acrescentar)
Concordo plenamente com a Águida, é uma questão cultural. O trabalho intelectual não é respeitado. Você menciona médicos, mas acho que nem eles atualmente escapam. Com os mais variados diagnósticos disponíveis no Google nem mesmo a idéia intocável do "dotô" escapa.
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